sexta-feira, 20 de março de 2009

As aranhas douradas

O caso começa quando Archie Goodwin , aborrecido com um amuo exagerado de Nero Wolfe, motivado por Fritz ter alterado uma receita sem o avisar, decide levar-lhe à presença um rapaz que lhe queria narrar uma história que tinha presenciado dentro de um carro.
O rapaz é assassinado e Wolfe parte para a descoberta do que se oculta por detrás dos factos contados pelo rapazito. Partindo sem um cliente que lhe pague os honorários, situação rara em Wolfe, acaba no final com chorudo cheque de um dos envolvidos no caso.
Este caso, As aranhas douradas, (The golden spiders), tem a particularidade de colocar Archie Goodwin em acção armada, disparando sobre um criminoso, situação rara num detective, cujo principal papel consiste em percorrer quilómetros para entrevistar suspeitos e conseguir levá-los ao gabinete de Nero Wolfe.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Os dez mandamentos do Padre Knox

Ronald A. Knox nasceu em 1888 em Leicestershire numa família anglicana. Converteu-se em adulto ao cristianismo tendo sido capelão da universidade de Oxford entre 1926 e 1939.
Como escritor de história policiais foi um dos fundadores do Detection Club, para o qual elaborou em 1929 um conjunto de regras a que deveria obedecer a escrita de histórias policiais.
1 - O criminoso deve ser mencionado no início da história, mas não deve ser alguém de quem o leitor siga os pensamentos.
2 - Todos os procedimentos sobrenaturais devem ser banidos.3- Não deve existir mais do que um quarto secreto ou do que uma passagem secreta.
4 - Não deve ser usado nenhum veneno desconhecido nem nenhum facto que exija uma longa explicação científica no final.
5 - Nenhum chinês deve figurar na história6 - Não devem existir acidentes que ajudem o detective nem este deve abusar da intuição.
7 - O detective não deve ser o criminoso.8 - O detective não deve usar pistas que não sejam conhecidas também pelo leitor.
9 - O amigo estúpido do detective, o Watson, não deve esconder nenhum pensamento que lhe passe na mente.; a sua inteligência deve ser ligeiramente, mas somente ligeiramente inferior à do leitor médio.
10 - Irmãos gémeos, ou duplos, não devem aparecer, a não ser que o leitor tenha sido previamente preparado para isso .
É evidente que nem entre os outros elementos do Detection Club estas regras foram seguidas. Ainda bem, pois se assim não tivesse sido, talvez já não existisse literatura policial.

quinta-feira, 12 de março de 2009

O caso das garras de veludo

É o primeiro caso de Perry Mason, publicado em Março de 1933.
Neste primeiro livro Perry Mason ainda não tem as características que viriam a tornar a personagem famosa. Ainda não é o detective que resolve os casos em tribunal. Aqui foi mais um detective do que um advogado.
Deste primeiro caso estão arredadas as interessantes lutas com o promotor de justiça em pleno tribunal. Tudo se passa num processo de investigação, onde apesar de ocorrer a prisão da sua cliente, o que se tornaria frequente, Mason resolve tudo antes do julgamento.
Apesar de não se encontrarem os interessantes interrogatórios de Mason, esta história tem no entanto uma outra característica particular. A solução nasce de indícios e não de construções teóricas, como acontecerá muitas vezes, que depois Mason tenta provar forçando a deslizes nos interrogatórios das testemunhas.
Della Street e Paul Drake fazem a sua aparição logo neste primeiro episódio.
O caso das garras de veludo foi publicado em Portugal pela primeira vez em 1947 na Colecção Vampiro, naquela que penso ser a primeira edição deste autor no nosso país. Em 1984, na Vampiro Gigante- Obras de Erle Stanley Gardner, fez parceria no volume duplo com O caso do cão uivador. Finalmente em 2003 a editora Asa fez uma nova tradução da obra, numa edição que se repetiu dois anos depois.

domingo, 8 de março de 2009

Crítica - Contos Policiais

A Porto Editora convidou 9 escritores a escreverem um conto policial cada um. Com o resultado editou o livro Contos Policiais.

Dulce Maria Cardoso, A desaparecida - Uma história com raízes bem identificáveis num caso real, a prometer um bom conto, mas com um final sem sentido, tendo em conta o decorrer da acção. O conto policial pode não dar no seu final uma resposta única, não pode é dar uma resposta sem sentido.

Francisco José Viegas, O manuscrito de Buenos Aires -Temos um escritor que domina arte do policial, mas que neste conto deixa o leitor desconsolado. Num conto que decorria com um ritmo lento surge um final rápido e abrupto, com atitudes que não se entendem de algumas personagens, como se o autor estivesse a querer terminar o mais rápido possível.

Gonçalo M. Tavares, Bucareste-Budapeste, Budapeste- Bucareste. Um dos contos mais inovadores no estilo, um tema interessante, bem desenvolvido, não deixando o leitor respirar, mas com um final que se adivinhava 3 páginas antes do fim.

Hélia Coreia, Ao seu alcance. Conto policial porque aborda o crime, embora fora da situação tradicional de investigação. Um conto interessante.

Mafalda Ivo Cruz, A colina - Mau. Não se percebe o final. Felizmente que o polícia não se lembrou de me prender a mim.

Mário Cláudio, São Gerónimo e o leão - Não sei se a história se poderá chamar policial. Há uma morte. É violenta? Não se sabe. É crime? Não se consegue ter opinião. E o conto policial, não dando resposta, deve deixar elementos para o leitor ter opinião. Não é o caso. Há um outro aspecto que me parece estranho no conto. Até metade da história, nada faria supor, antes pelo contrário, que o advogado era amigo da vítima. O fio da história ficou algo emaranhado.

Ricardo Miguel Gomes, A perdição do sorriso cromado - Sem dúvida, no que respeita à estrutura do policial, a melhor das histórias. Segue um modelo humorístico de ridicularização da polícia. O final é excelente. Exageros em alguns diálogos que acabam um pouco desenquadrados do ritmo da história.

Rui Zink, D. Quixote - Um conto interessante, com crime, e um final inesperado, mas em que a eliminação das últimas linhas deixaria o leitor mais espantado.

Valter Hugo Mãe, O criminoso portuguesinho - Mais uma história que segue a linha humorística de ridicularização da investigação feita pelos polícias, embora o leitor encontre um final pouco criativo, se entretanto o estilo não o fez desistir antes.

Não deve ser fácil organizar um livro destes, dada a falta de matéria-prima. Se os romances policiais de autores portugueses são poucos, os contos ainda são menos. Não existem contos porque não há locais para publicar. Falta em Portugal a tradição das revistas ou dos suplementos dos jornais.
Essa falta de “escola” é bem visível neste livro, onde se mostra que não basta ser um bom, ou mesmo um excelente escritor para escrever no género policial.
Dick Haskins, o escritor policial português mais traduzido, afirmou numa entrevista ao Diário de Notícias em 23 de Junho de 2007: . "Um escritor de policiais é capaz de escrever qualquer género. O contrário já não é verdade. Muitos tentaram e não conseguiram"
Este livro é demonstrativo.
Na nota introdutória, Pedro Sena –Lino, o coordenador do livro escreve: “Um género só se implanta se tiver autores e leitores: agora tudo depende de si, leitor detectivesco”.
Eu acrescentaria. Também depende da qualidade do conteúdo, e não me parece que este livro consiga cativar muitos leitores para o género.




quarta-feira, 4 de março de 2009

Nero Wolfe

Nero Wolfe é possivelmente o detective mais gordo da história da literatura policial. Vive na sua casa da 35ª Rua Oeste de onde não gosta de sair. Tem horror a automóveis, apenas aceitando ser conduzido, caso seja mesmo indispensável, por Archie Goodwin, o seu homem de acção que recolhe todas as pistas e contacta os suspeitos e testemunhas para que estes visitem Wolfe. Na casa vive ainda Fritz, o cozinheiro responsável por produzir todos os acepipes que Nero Wokfe gosta.
Além de resolver crimes, sempre muito bem pago para o efeito, Wolfe tem como passatempo cultivar orquídeas na estufa que possui no último andar. É aí que que, durante duas horas de manhã e duas horas à tarde, faz companhia ao jardineiro Theodore.
A resolução dos casos passa quase sempre por uma reunião em casa de Wolfe, para onde também é convidado Cramer, o representante da autoridade, e que acaba com a descoberta de quem cometeu o crime.
Os métodos de Wolfe não são de dedução a partir de pistas. Dificilmente o leitor, com os dados de que tem conhecimento, conseguiria chegar à mesma conclusão. Por vezes alguns dos dados que detective utiliza nem são do conhecimento do leitor.
A resolução é mais pela intuição, pela descoberta de quem mais lucra com o crime, pela procura do verdadeiro móbil, do que pela análise de indícios no local do crime ou pela destruição do álibi do criminoso.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Quem matou o Almirante?

Em 1931 alguns membros do Detection Club escreveram em conjunto The floatting Admiral, Quem matou o almirante?.
Doze capítulos, cada um escrito por um autor diferente que teria de continuar o capítulo anterior e propor uma solução para o caso. Houve mais um escritor, G.K. Chesterton, que escreveu o prólogo, mas apenas no final, quando já era conhecida a solução.
São os seguintes os criadores da história por ordem de escrita dos capítulos.
Canon Victor, L. Whitechurch, G.D.H e M.Cole, Henry Wade, Agatha Christie, John Rhode, Milward Kennedy, Dorothy L. Sayers, Ronald A. Knox, Feeman Wills Crofts, Edgar Jepson, Clemence Dane e Anthony Berkeley que encerrou a obra.
Neste grupo realço Dorothy L. Sayers , pela solução que apresentou, ainda a meio da ora, com um grau de pormenorização extraordinário.
Mais do que a excepcionalidade da obra, que acaba por parecer em determinados momentos um pouco retalhada, é interessante verificar a forma como se pode construir um romance policial, contrapondo a escrita do autor, com a solução que ele apresenta para o final.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Sherlock Holmes

Sherlock Holmes é “o detective” por excelência. Aquele que pega no menor indício e deduz a partir dessa pequena pista a solução. A ligação desta personagem à literatura policial é tão forte que com o decorrer do tempo a palavra Sherlock acabou por ser sinónimo de detective.
A personagem nasceu em 1887 na obra Um estudo em Vermelho, tendo surgido num total de 4 novelas e 56 contos. Estes números são válidos para os textos escritos por Conan Doyle, pois após a sua morte outros escritores deram continuação à série, embora a sua importância acabe por ser irrelevante na história da literatura policial.
Sherlock Holmes analisa todos os pormenores e a solução do caso vem quase sempre de um indício insignificante que normalmente nada significa para outros. Não raro, gosta de dramatizar as suas deduções e a apresentação final da solução, na perspectiva de impressionar o seu amigo Watson, o narrador das histórias, ou até a própria polícia.
Com um raciocínio rápido e brilhante entra em depressão quando está muito tempo sem deslindar um caso.
Com frequência usa os designados “ irregulares de Baker Street”, um conjunto de garotos pobres, para seguir pessoas ou dar recados.
Sherlock Holmes será um dos primeiros exemplos da influência do publico nos criadores. Conan Doyle resolveu matar o detective no conto O problema final, mas as reclamações dos leitores foram tantas que ele reapareceu.
O sucesso da personagem foi tão grande, que a casa fictícia onde ele viveu é hoje uma casa real, na rua indicada por Doyle nas sua histórias, Baker Street, no número 221 B.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Rex Stout

Rex Todhunter Stout foi um escritor norte-americano que nasceu em 1 de Dezembro de 1886 e morreu em 27 de Outubro de 1975. Na década de 1910 começou a publicar contos no All-Story Magazine, uma revista muito popular nos Estados Unidos. Seria no entanto em 1934 que ele publicaria o primeiro livro com Nero Wolfe como personagem: Fer-de-lance.
Criou ainda mais alguns detectives: Dol Bonner, protagonista de um romance, Tecumseh Fox, protagonista em três livros, e Cramer, que mais tarde seria o “policia de serviço” nas histórias de Nero Wolfe, publicado num romance em 1929. Seria no entanto com o mais gordo detective da literatura policial, Nero Wolfe, que Stout ganharia fama.
Nas histórias escritas por Stout ressalta o bom humor do narrador, amenizando com o seu estilo as situações mais dramáticas e desfechos mais fatais.
Stout foi também um cidadão politicamente activo na luta contra o sectarismo da “caça ás bruxas”, que ocorreu no final da década de 40 e início da de 50 por iniciativa do senador McCarthy.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Traduções

Para um leitor português, ler um livro policial significa, na maior parte das vezes, ler um texto traduzido. A edição de autores nacionais é reduzida, sendo de autores estrangeiros a maioría dos livros publicados.
Essa situação obriga ao recurso aos tradutores em grande escala e o resultado nem sempre é o melhor. Ainda para mais, neste género literário, que alguns editores consideram menor, a escolha dos tradutores nem sempre obedece aos requisitos mínimos de qualidade. E não é necessário conhecer o texto original para se ter esta opinião. Basta ler alguns livros para perceber que um texto escrito daquele modo na língua original, dificilmente seria aceite pelo editor, nunca seria um sucesso de vendas, como por vezes é, e receberia os elogios da crítica.
Não é raro duas obras do mesmo autor, traduzidas por duas pessoas diferentes, adquirirem na tradução estilos totalmente distintos ou, à vezes, ausência de estilo.
Este é um mal já antigo como se pode ler neste texto, transcrito da revista O gato preto, número 1, de Janeiro de 1952. Não está assinado mas será muito provavelmente de um dos responsáveis pela edição: Francisco A. Branco ou Manuel do Carmo.
Com o devido respeito, aqui fica a transcrição.
“ O gato preto não é coca-bichinhos. Não leu a tradução do “ Falcão de Malta” porque sabia o original inglês de cor. Quando ouviu toda a gente dizer que não gostava do livro, não percebeu.(…). Comprou o livro e meteu-se à leitura. Antes não o fizesse. Aquilo não é o “Falcão de Malta”.
Um dos livros mais notáveis da literatura americana fora transformado num folhetim barato. O gato preto não é coca-bichinhos. Mas apeteceu-lhe ver o que teriam feito a um escritor talvez ainda mais pessoal. E comprou “ À beira do abismo”. Antes não comprasse. O estilo desapareceu. (…) A ironia cáustica de Chandler – no tinteiro. Quando uma frase é mais complicada salta-se-lhe por cima. (…) Não há dúvida que os portugueses ainda não conhecem Hammett e Chandler. Conhecem o enredo? Talvez. Mas convencer-nos que ler aquilo é ficar a conhecer os autores é o mesmo que querer explicar-nos o que é um Rubens por meio de uma má fotografia de jornal.”

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Erle Stanley Gardner

Erle Stanley Gardner nasceu em 1889 e morreu em 1970. Além de escritor de romances policiais foi advogado. Nessa função fez parte de uma organização que analisava casos já julgados, em que teriam sido cometidos erros de defesa, de investigação ou de julgamento.
Como escritor usou vários pseudónimos: A.A. Fair, Kyle Corning, Charles M. Green, Carleton Kendrake, Charles J. Kenny, Les Tillray, e Robert Parr.
A sua principal obra foi no entanto publicada sob o seu verdadeiro nome. Trata-se do advogado Perry Mason, protagonista de várias dezenas de romances e contos.
No magazine Black Mask publicou mais de 70 contos de uma outra personagem: Ed Jenkis
Donal Lam e Bertha Cool formam a parelha de detectives criada sob o pseudónimo de A.A.Fair.
Nota-se na obra de Erle Stanley Gardner a preocupação de mostrar as fragilidades do sistema policial e judicial norte-americano, com as injustiças que dai resultam, mas também demonstrar que é possível lutar e atingir a justiça usando esse mesmo sistema.
Erle Stanley Gardner é um dos escritores que criou na década de trinta do século passado uma nova visão do policial, em que a acção se sobrepõe ao enigma, em que a investigação não ocorre por puro deleite intelectual, mas para ganhar dinheiro.